quarta-feira, 16 de março de 2016

O Cristianismo é uma Muleta?


Por Simon Wenham*

Crentes são frequentemente caricaturados como sendo fracos e ingênuos - o tipo de pessoas que precisa de sua fé como uma “muleta” para ajudá-los a enfrentar a vida. Na nova literatura ateia, esta descrição é contrastada com freqüência com a imagem de um ateísmo intelectualizado, que não necessita desse "conforte infantil e sem sentido". E, “Uma das mais familiares críticas ao Cristianismo é que ele oferece consolação para perdedores na vida” (Alister McGrath).

Alguns podem concordar com este tipo de concepção, mas ela realmente faz sentido?

O QUE É UMA MULETA?

No contexto médico, o termo obviamente significa um apoio usado pelas pessoas quando estão machucadas. A analogia implica, portanto, que aqueles que precisam de uma, de algum jeito são deficientes ou estão feridos. Em certo sentido, é bastante óbvio que os mais vulneráveis necessitem de um apoio; mas, como o agnóstico John Humphrys aponta, “Não precisamos todos?”. Alguns preferem usar o álcool a usar a Bíblia.

Como isto sugere, não é tanto uma questão se você usa muleta, mas que tipo particular de muleta você utiliza. Este é um ponto importante a ser considerado, visto que as pessoas confiam em todo tipo de coisas para seu conforto e autoestima, desde bens materiais, dinheiro, comida e o asceticismo, até cigarros, drogas, álcool e sexo. No entanto, mais do que ser vistas como sinais de fraqueza, muitas dessas coisas são consideradas relativamente normais em nossa sociedade, desde que não se tornem comportamentos destrutivos associados ao vício.

Apesar disso, muitas dessas coisas apenas oferecem um alívio, em curto prazo, para as lutas da vida, e elas, algumas vezes, somente escondem problemas mais profundos que estão causando sofrimento à pessoa. Sugerir, portanto, que os ateus são, de algum modo, mais fortes que os crentes, é negar o lado escuro da humanidade, que apenas é percebido quando olhamos o mundo ao nosso redor. Nesse sentido, McGrath argumenta que:

Se você está com uma perna quebrada, você precisa de uma muleta. Se você está doente, você precisa de remédio. É exatamente assim que as coisas são. A compreensão cristã da natureza humana é que nós estamos machucados, feridos e incapacitados por causa do pecado.

A IGREJA COMPARADA A UM HOSPITAL

Agostinho de Hipona comparou a igreja a um hospital, porque está cheia de pessoas feridas e doentes em um processo de cura; no entanto, assim como acontece com qualquer doença, esse tratamento não pode ser iniciado, até que a pessoa admita que está doente e que precisa de ajuda.

Há muitas evidências que sugerem os efeitos positivos da fé religiosa, tanto na saúde física quanto na mental. Andrew Sims, ex-presidente do Royal College of Psychiatrists, escreveu que isto é confirmado por um “enorme volume de pesquisas”, fazendo disto “um dos segredos mais bem guardados na psiquiatria e na medicina em geral.”

Em uma cultura que parece exaltar com freqüência a saúde, o bem estar e a felicidade acima das outras coisas, parece que essa constatação deveria conferir à fé religiosa um forte apelo, tanto para os fracos quanto para os fortes na sociedade.

SERIA A FÉ RELIGIOSA APENAS UMA PROJEÇÃO?

Já se afirmou que a religião só sobrevive porque as pessoas querem desesperadamente acreditar, porque elas não conseguem superar a realidade da própria mortalidade (ou de seus entes queridos). Foi Sigmund Freud quem contribuiu para popularizar esta ideia, quando sugeriu que a concepção de um Criador amoroso era uma simples projeção psicológica dos desejos mais íntimos de uma pessoa, afirmando que:

Dizemos a nós mesmos que seria muito bom se existisse um Deus criador do mundo, uma Providência benevolente, uma ordem moral no universo e uma vida  depois da morte; o mais impressionante é que estamos inclinados a desejar exatamente que tudo isto seja real.

Este argumento pode soar verdadeiro, pelo menos superficialmente, pois é mais provável que as pessoas creiam em algo de que elas gostem do que de algo de que elas não gostem; e, é claro, o Cristianismo é poderosamente convincente. De fato, esse argumento em si mesmo é uma admissão disto, já que reconhece o desejo inato em todos nós que é realizado por Deus.

Quem não gostaria de ter um relacionamento com um Deus amoroso que, não somente deseja o melhor para suas criaturas, mas também oferece a eternidade em um lugar mais maravilhoso do que se possa imaginar? Por outro lado, a Bíblia também contém algumas passagens muito impactantes, que parece contradizer a noção de que a fé religiosa é simplesmente uma projeção de nossos desejos. Por exemplo, C.S Lewis ressaltou que a Escritura também ensina que os crentes deveriam temer ao Senhor, mas não se pode sugerir que isto signifique uma fé do tipo “induzida pelo medo!”

O problema com esse argumento da projeção é que ele pode ser anulado pelo seguinte confronto: se as pessoas só acreditam porque elas desejam que aquilo em acreditam seja verdadeiro, então é correto raciocinar que os ateus não acreditam simplesmente porque eles não querem acreditar na veracidade do objeto de fé dessas pessoas. 

Alguns tem afirmado isto categoricamente, tal como Algous Huxley que escreveu:

Para mim mesmo, e, sem dúvida, para a maioria de meus contemporâneos, a filosofia da insignificância era, essencialmente, um instrumento de liberação. A liberação que desejávamos era, simultaneamente, a liberação de um determinado sistema político e econômico e liberação de um determinado sistema de moralidade. Nós objetamos contra a moralidade porque ela interferia em nossa liberdade sexual; nós objetamos contra o sistema político e econômico porque ele era injusto.

Conforme Czeslaw MIlosz aponta, este é um tipo de desejo negativo, porque “Um verdadeiro ópio do povo é uma fé no nada depois da morte; no entanto,  há grande consolo em pensar que nós não seremos julgados por nossas traições, avareza, covardia, assassinatos.”

ALGO MUITO MELHOR QUE UMA MULETA

O interessante sobre a fé cristã é que os argumentos intelectuais favoráveis a Deus são apoiados por uma realidade que pode ser experimentada pessoalmente. Existem exemplos incontáveis de pessoas que descobriram uma fé transformadora, mesmo tendo sido outrora hostis a essa ideia. Isto parece soar muito bom para ser verdade, mas é algo que está ao alcance de todos.

Muitos crentes testificam o efeito transformador em suas vidas o fato de terem se tornado cristãos, incluindo ser libertos de algumas das muletas em que eles anteriormente confiavam. No entanto, muitos consideram um absurdo atribuir à fé a virtude de ser, ou libertadora ou fortalecedora. Christopher Hitchens, por exemplo, fala que a natureza do Cristianismo é totalitária e mantém seus seguidores em um estado de constante subserviência. Por outro lado, G.K. Chesterton vê de forma diferente e sugere que a “dignidade e a pequenez do homem” são mantidas em perfeita tensão, permitindo às pessoas ter um senso forte de auto-estima sem se tornarem obstinadas.

No entanto, Deus claramente oferece muito mais que isto. Em 2 Cor 12.9, ele declara ao apóstolo Paulo: “Minha graça te basta, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”. A ideia de poder fluindo da fraqueza humana pode parecer um contra-senso à cultura hodierna de aversão ao risco, mas Simon Guillebaud destaca que, “paradoxalmente, o tremular de nossa bandeira branca de submissão ao direito divino sobre nossas vidas é a chave que abre as portas para muitas vitórias futuras em seu nome.”

Contudo, como C. S. Lewis observou que as pessoas ainda escolherão agarrar-se às suas muletas, mesmo quando algo muito melhor lhes estiver sendo oferecido, e afirma:

Somos criaturas de corações divididos, enganando-nos com bebedeiras, sexo e ambição, enquanto há um gozo infinito que nos é oferecido; como uma criança que prefere brincar na lama porque não sabe o que significa um feriado na praia, somos muito mais facilmente iludidos.

UMA REFLEXÃO

Devemos, portanto, refletir em que, em nossas vidas, nós realmente estamos colocando nossa confiança, e que impacto tem tido sobre nós. Conforme  Daniel Rodger, ex-ateu, nos lembra, não queremos perder a plenitude da vida que Deus nos oferece a todos, não importando se achamos que precisamos dela ou não:

A verdade é que Jesus não ofereceu uma muleta, ele ofereceu somente uma cruz; não foi um chamado para ser uma pessoa melhor, com forte auto-estima ou um plano para nos ajudar a sobreviver nossa existência. Foi um chamado para reconhecer que o perdão que todos buscamos é encontrado nele, ao segui-lo até a cruz... É porque o Cristianismo é verdadeiro que tem algo a oferecer a todas as pessoas em todas as circunstâncias, não importando seu passado ou capacidades intelectuais.

(*Tradução e adaptação nossas)

REFERÊNCIAS

Simon Wenham is Research Coordinator for Ravi Zacharias International Ministries in Europe.
Alister McGrath, Mere Apologetics (Grand Rapids, MI: Baker Book House, 2012),
167. Article adapted from Simon Wenham’s “Is Christianity Just a Crutch?” Pulse , Issue 10 (Spring 2012), 14-16.
John Humphrys, In God We Doubt: Confessions of a Failed Atheist (London: Hodder & Stoughton, 2007),
quoted in John C. Lennox, Gunning for God: Why the New Atheists are Missing the Target (Oxford: Lion Hudson, 2011),
24. McGrath, Mere Apologetics , 1
70. Ibid Andrew Sims, Is Faith Delusion? Why Religion Is Good for Your Health (London: Continuum, 2009), quoted in Lennox,
Gunning, 77-78. Sigmund Freud, Civilization and Its Discontents (New York: W.W. Norton, 1962), 21, quoted in McGrath, 167.
C. S. Lewis, The World’s Last Night: And Other Essays (New York: Mariner Books, 2002),
19. Robert S. Baker and James Sexton, eds., Aldous Huxley Complete Essays, Vol 4 (Lanham, MD: Ivan R. Dee, 2001), 369.
Czeslaw Milosz, “The Discrete Charm of Nihilism,” quoted in Lennox, 47.
Manfred Lutz, God: A Brief History of the Greater One (Munich: Pattloch Verlag GmbH + Co., 2007), cited in Lennox, 46.
Christopher Hitchens, God Is Not Great (London: Atlantic Books, 2007), 232-234.
G. K. Chesterton, Orthodoxy (Chicago: Moody Publishers, 2009), 143.
Simon Guillebaud, For What It’s Worth (Oxford: Lion Hudson, 1999), 171.
C. S. Lewis, The Weight of Glory and Other Addresses (Grand Rapids, MI: William B. Eerdmans, 1949), 1-2.
Daniel Rodger, “Is Christianity a Psychological Crutch?” Online at 



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