Este artigo é uma breve reflexão sobre
o incidente relatado no capítulo 32 do livro de Êxodo, ocorrido há séculos, quando os hebreus haviam sido
libertos do Egito, e estavam no deserto sob a liderança de Moisés.
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O relato bíblico dá conta, ainda, de que, naquele dia, a ordem de Moisés foi cumprida e foram mortos em torno de três mil homens. Uma verdadeira matança. Nada mais aterrador.
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Além da ordem em si, outro motivo de
estranhamento é que, nesse incidente, de acordo com o registro bíblico, Moisés
estava dando uma ordem em nome do Senhor. Ele usa a expressão: “Assim diz o
Senhor”, e essa expressão é recorrente em situações dessa natureza, não apenas com
Moisés, mas também com outros profetas. Ela traz um peso de autoridade
incalculável; afinal de contas, era o próprio Deus que estava ordenando a
matança; estranhamente, essa ordem partiu do mesmo Deus que estabeleceu o
princípio de preservação da vida com o mandamento: “Não matarás”. E para
agravar ainda mais o cenário, as vítimas eram irmãos, filhos e amigos daqueles
a quem fora ordenado “cingir” as espadas!
Outro estranhamento, ainda, é o fato de
que, no dia seguinte, Moisés buscou a Deus para interceder pelo povo, dizendo:
“Ora, o povo cometeu grande pecado fazendo para si deuses de ouro. Agora, pois,
perdoa-lhe o pecado; ou, se não, risca-me, peço-te do livro que escreveste”.
(Êxodo 32. 31 – 32).
Qual o cabimento de uma oração como essa, quando aproximadamente três mil pessoas já haviam sido mortas como punição no dia anterior? Em linguagem de hoje, o que aconteceu foi uma chacina! Como conciliar esse fato com a descrição de que Moisés era um homem mui manso, e que Deus, nas palavras do próprio Moisés, é um “[..] Deus compassivo, clemente e longânimo e grande em misericórdia e fidelidade”. (Ex.: 34.6)?
Qual o cabimento de uma oração como essa, quando aproximadamente três mil pessoas já haviam sido mortas como punição no dia anterior? Em linguagem de hoje, o que aconteceu foi uma chacina! Como conciliar esse fato com a descrição de que Moisés era um homem mui manso, e que Deus, nas palavras do próprio Moisés, é um “[..] Deus compassivo, clemente e longânimo e grande em misericórdia e fidelidade”. (Ex.: 34.6)?
Esses incidentes são apontados,
criticados e ironizados pelos inimigos da fé. São incidentes que também chocam
o leitor fiel, que levantam questionamentos sinceros, para os quais devem-se
buscar respostas aceitáveis. Por essa razão, apesar de não abalarem minha fé na
Palavra de Deus, esses incidentes incomodam e aguçam minha preocupação por
encontrar, não só possíveis respostas, mas respostas plausíveis para dar
àqueles que me indagarem sobre esses fatos.
Obviamente, passagens como essa não são
de fácil interpretação, deixando margem para todo tipo de cogitação. Vou
procurar, no entanto, apresentar alguns argumentos que me vieram ao espírito
enquanto cogitava sobre o assunto.
Primeiramente, deve-se levar em conta
que séculos de história e acentuadas diferenças culturais nos separam desse
incidente. Em segundo lugar, é necessário trabalhar o contraste entre
nossa concepção (visão) de Deus como sendo um Deus de amor, e o senso de
justiça divino.
Ao longo da Bíblia, há uma clara tensão
entre os atributos divinos do amor e da justiça. Nesse sentido, alguém já
afirmou: “Deus é amor, mas também é fogo consumidor”. Deuteronômio 4.24 declara "Porque o Senhor teu Deus é um fogo que consome, um Deus zeloso."
Ainda dentro dessa visão, há que se
comparar também esse amor e essa justiça divinos, com a concepção que nós seres
humanos, pertencentes a culturas tão diferentes entre si, temos de amor e de
justiça.
Provavelmente esse incidente não causou
tanta, ou nenhuma estranheza para a cultura do povo que seguia Moisés; e que,
nem tampouco, cause esse tipo de sentimento em povos belicosos, ou fanáticos
religiosos, a exemplo dos fundamentalistas árabes. No entanto, para nós,
ocidentais, e, eu diria, para o brasileiro especificamente, que se depara com
um relato dessa natureza, o choque é inevitável; seguido por questionamentos,
tais como: “Mas, por que Senhor?! Isto porque somos, na essência cultural,
paternalistas e inclinados à complacência com o erro.
Essa cultura tem resultado em impunidade. Hoje
o Brasil assiste indignado, apesar das piadas que são feitas, com a desenfreada
e descarada corrupção, não só política, mas em todos os segmentos da sociedade
brasileira; com os desmandos na administração do dinheiro público, e com o
enriquecimento ilícito de uma minoria, mas nada se faz. Os culpados, quando
julgados, são inocentados; e, quando condenados, riem-se da sentença, e saem
dos tribunais acenando e dando entrevistas, pois sabem que não cumprirão
sentença alguma. E o pior, continuam ocupando cargos estratégicos na política e
economia do país.
Esse é o tipo de senso de justiça
generalizado que está impregnado na sociedade e que, inconscientemente, ou não,
tendemos a esperar que um Deus que se diz amor e misericordioso, também seja
complacente. É por essa razão que o nosso estranhamento, e talvez, até
indignação contra Moisés e Deus sejam evidenciados, e a pergunta fica ecoando
“Por que, oh Deus, três mil mortes?
Além de nosso senso de amor e de
justiça serem diferentes do senso divino, o próprio senso de pecado e de sua
gravidade também é afetado. Ora, se entre nossas culturas, e até mesmo entre
pessoas de mesma cultura a concepção de pecado varia, imagine-se a distância
que existe entre essas concepções de pecado e a concepção divina?
Talvez aqui esteja a razão principal de
nossa estranheza: a percepção da seriedade do que estava acontecendo. “Por que
tanto alarde?” Perguntamos. O povo estava apenas dançando e se alegrando diante
de um simples bezerro de ouro, que fizeram para adorar. Onde está a liberdade
de culto? Perguntamos novamente. Nesse sentido, vale ressaltar que um dos
grandes obstáculos que os cristãos enfrentam hoje, quando tentam evangelizar as
pessoas é a exigência de que a religião do outro seja respeitada. Temos
que respeitar, mesmo quando, a partir de nossa leitura do ponto de vista
bíblico, determinada religião é uma afronta a Deus. Para os homens era apenas um
bezerro de ouro; apenas uma manifestação de religiosidade. Para Deus, porém,
era um tremendo insulto. Ainda mais porque eles estavam atribuindo sua
libertação do trabalho escravo no Egito, não ao Javé de Moisés, mas ao bezerro
de ouro, cópia de um dos ídolos do Egito! Que Deus abominava, e que foi motivo
da quase destruição daquele país.
Por outro lado, Moisés também errou,
pois seu irmão foi poupado. Mas quem disse em algum momento que os homens
de Deus eram perfeitos? Não podemos esquecer que Moisés, por suas faltas,
apesar de contemplar a terra prometida, nela não entrou.
Esta reflexão ainda está em aberto,
pois outras interpretações são possíveis, de acordo com
o ponto de vista de cada leitor. É possível que, revisitando essa passagem,
outros insights ocorrerão. No entanto, é importantíssimo que se tenha em mente
que, o Deus que ama, também é o mesmo que pune. Se sua punição nos parece
injusta ou não, exagerada ou não, é algo sobre o que muito pouco podemos dizer
ou fazer. Tão somente reconhecer, pela fé, que Ele em sua Onisciência e
Onipotência sabe o que faz.


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