sábado, 19 de outubro de 2013

Amar e Punir: Contradições de Deus?

Este artigo é uma breve reflexão sobre o incidente relatado no capítulo 32 do livro de Êxodo, ocorrido há séculos, quando os hebreus haviam sido libertos do Egito, e estavam no deserto sob a liderança de Moisés. 


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Após destruir o bezerro de ouro que o povo fizera para adorar (insultando ao Senhor) Moisés dá algumas ordens, no mínimo chocantes. Ele diz: “Assim diz o Senhor, o Deus de Israel: cada um cinja a espada sobre o lado, passai e tornai a passar pelo arraial de porta em porta, e mate cada um a seu irmão, cada um a seu amigo, e cada um, a seu vizinho [...] consagrai-vos, hoje, ao Senhor. Cada um contra seu filho e contra seu irmão, para que ele vos conceda, hoje, bênção”. (Êxodo 32. 27 e 29). 

O relato bíblico dá conta, ainda, de que, naquele dia, a ordem de Moisés foi cumprida e foram mortos em torno de três mil homens. Uma verdadeira matança. Nada mais aterrador.

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Incidentes semelhantes a esses são recorrentes ao longo do texto bíblico no Velho Testamento. Ordens absurdas para o senso de justiça e humanidade do homem moderno e civilizado. Ordens que vão de encontro a toda concepção de direitos humanos e de liberdade religiosa. Diante de um relato como esse, uma pergunta não pode deixar de ser feita: Como assimilar esses incidentes protagonizados por grandes homens de Deus?

Além da ordem em si, outro motivo de estranhamento é que, nesse incidente, de acordo com o registro bíblico, Moisés estava dando uma ordem em nome do Senhor. Ele usa a expressão: “Assim diz o Senhor”, e essa expressão é recorrente em situações dessa natureza, não apenas com Moisés, mas também com outros profetas. Ela traz um peso de autoridade incalculável; afinal de contas, era o próprio Deus que estava ordenando a matança; estranhamente, essa ordem partiu do mesmo Deus que estabeleceu o princípio de preservação da vida com o mandamento: “Não matarás”. E para agravar ainda mais o cenário, as vítimas eram irmãos, filhos e amigos daqueles a quem fora ordenado “cingir” as espadas!

Outro estranhamento, ainda, é o fato de que, no dia seguinte, Moisés buscou a Deus para interceder pelo povo, dizendo: “Ora, o povo cometeu grande pecado fazendo para si deuses de ouro. Agora, pois, perdoa-lhe o pecado; ou, se não, risca-me, peço-te do livro que escreveste”. (Êxodo 32. 31 – 32). 

Qual o cabimento de uma oração como essa, quando aproximadamente três mil pessoas já haviam sido mortas como punição no dia anterior? Em linguagem de hoje, o que aconteceu foi uma chacina! Como conciliar esse fato com a descrição de que Moisés era um homem mui manso, e que Deus, nas palavras do próprio Moisés, é um “[..] Deus compassivo, clemente e longânimo e grande em misericórdia e fidelidade”. (Ex.: 34.6)?

Esses incidentes são apontados, criticados e ironizados pelos inimigos da fé. São incidentes que também chocam o leitor fiel, que levantam questionamentos sinceros, para os quais devem-se buscar respostas aceitáveis. Por essa razão, apesar de não abalarem minha fé na Palavra de Deus, esses incidentes incomodam e aguçam minha preocupação por encontrar, não só possíveis respostas, mas respostas plausíveis para dar àqueles que me indagarem sobre esses fatos.

Obviamente, passagens como essa não são de fácil interpretação, deixando margem para todo tipo de cogitação. Vou procurar, no entanto, apresentar alguns argumentos que me vieram ao espírito enquanto cogitava sobre o assunto.

Primeiramente, deve-se levar em conta que séculos de história e acentuadas diferenças culturais nos separam desse incidente. Em segundo lugar, é necessário trabalhar o contraste entre nossa concepção (visão) de Deus como sendo um Deus de amor, e o senso de justiça divino.

Ao longo da Bíblia, há uma clara tensão entre os atributos divinos do amor e da justiça. Nesse sentido, alguém já afirmou: “Deus é amor, mas também é fogo consumidor”. Deuteronômio 4.24 declara "Porque o Senhor teu Deus é um fogo que consome, um Deus zeloso."

Ainda dentro dessa visão, há que se comparar também esse amor e essa justiça divinos, com a concepção que nós seres humanos, pertencentes a culturas tão diferentes entre si, temos de amor e de justiça.

Provavelmente esse incidente não causou tanta, ou nenhuma estranheza para a cultura do povo que seguia Moisés; e que, nem tampouco, cause esse tipo de sentimento em povos belicosos, ou fanáticos religiosos, a exemplo dos fundamentalistas árabes. No entanto, para nós, ocidentais, e, eu diria, para o brasileiro especificamente, que se depara com um relato dessa natureza, o choque é inevitável; seguido por questionamentos, tais como: “Mas, por que Senhor?! Isto porque somos, na essência cultural, paternalistas e inclinados à complacência com o erro.

Essa cultura tem resultado em impunidade. Hoje o Brasil assiste indignado, apesar das piadas que são feitas, com a desenfreada e descarada corrupção, não só política, mas em todos os segmentos da sociedade brasileira; com os desmandos na administração do dinheiro público, e com o enriquecimento ilícito de uma minoria, mas nada se faz. Os culpados, quando julgados, são inocentados; e, quando condenados, riem-se da sentença, e saem dos tribunais acenando e dando entrevistas, pois sabem que não cumprirão sentença alguma. E o pior, continuam ocupando cargos estratégicos na política e economia do país.

Esse é o tipo de senso de justiça generalizado que está impregnado na sociedade e que, inconscientemente, ou não, tendemos a esperar que um Deus que se diz amor e misericordioso, também seja complacente. É por essa razão que o nosso estranhamento, e talvez, até indignação contra Moisés e Deus sejam evidenciados, e a pergunta fica ecoando “Por que, oh Deus, três mil mortes?

Além de nosso senso de amor e de justiça serem diferentes do senso divino, o próprio senso de pecado e de sua gravidade também é afetado. Ora, se entre nossas culturas, e até mesmo entre pessoas de mesma cultura a concepção de pecado varia, imagine-se a distância que existe entre essas concepções de pecado e a concepção divina?

Talvez aqui esteja a razão principal de nossa estranheza: a percepção da seriedade do que estava acontecendo. “Por que tanto alarde?” Perguntamos. O povo estava apenas dançando e se alegrando diante de um simples bezerro de ouro, que fizeram para adorar. Onde está a liberdade de culto? Perguntamos novamente. Nesse sentido, vale ressaltar que um dos grandes obstáculos que os cristãos enfrentam hoje, quando tentam evangelizar as pessoas é a exigência de que a religião do outro  seja respeitada. Temos que respeitar, mesmo quando, a partir de nossa leitura do ponto de vista bíblico, determinada religião é uma afronta a Deus. Para os homens era apenas um bezerro de ouro; apenas uma manifestação de religiosidade. Para Deus, porém, era um tremendo insulto. Ainda mais porque eles estavam atribuindo sua libertação do trabalho escravo no Egito, não ao Javé de Moisés, mas ao bezerro de ouro, cópia de um dos ídolos do Egito! Que Deus abominava, e que foi motivo da quase destruição daquele país.

Por outro lado, Moisés também errou, pois seu irmão foi poupado. Mas quem disse  em algum momento que os homens de Deus eram perfeitos? Não podemos esquecer que Moisés, por suas faltas, apesar de contemplar a terra prometida, nela não entrou.

Esta reflexão ainda está em aberto, pois outras interpretações são possíveis, de acordo com o ponto de vista de cada leitor. É possível que, revisitando essa passagem, outros insights ocorrerão. No entanto, é importantíssimo que se tenha em mente que, o Deus que ama, também é o mesmo que pune. Se sua punição nos parece injusta ou não, exagerada ou não, é algo sobre o que muito pouco podemos dizer ou fazer. Tão somente reconhecer, pela fé, que Ele em sua Onisciência e Onipotência sabe o que faz. 


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