Pr. Artur Eduardo[1]
Atualmente, é comum
transformar “motes” em “moda” e – com uma ajudinha de “dona Internet” -,
elevarmos a “moda do momento” a um status de “dogma perene”, algo que parece
ter de vir associado àquilo que dizemos, simplesmente porque “está na moda”.
Está na moda afirmarmos que muitas coisas (entenda-se “pessoas”) parecem, mas
não são.
Apesar de ser uma
frase que extrai da realidade apenas o óbvio, há algum tempo, em nosso
contexto, “virou moda”, e como tal é comum quase todo mundo advertir de algo ou
alguém que “parece, mas não é”. O ruim dos motes que viram moda é que suas
contrapartes (ou contrárias) podem estar tão certas (ou erradas) quanto
aquelas.
Observe a frase “Todos
os políticos são honestos”. É evidentemente falsa. E, por incrível que pareça
(e mesmo contra toda nossa desconfiança), a frase contrária daquela, ou “Nenhum
político é honesto” também é falsa! Vamos a outro exemplo, mais abrangente:
“Todo homem é brasileiro” é uma frase evidentemente falsa (há homens
americanos, russos, chineses, holandeses etc.) , e sua contrária, “Nenhum homem
é brasileiro”, é tão falsa quanto, pois há homens que são brasileiros.
Porém, o nosso
cérebro, cheio de certezas triviais do senso comum, costuma nos pregar peças.
Quando se diz: “Nem tudo o que parece é” (o que é evidentemente verdade),
parece confundir-se no ideário popular com a seguinte frase: “Tudo o que
parece, não é”. São frases com sentidos tão distintos quanto “2″ e “√2″, e,
ironicamente podem cair no problema que foquei no início deste texto, ou seja,
parecem, mas não são.
A questão é, por quê?
Porque gostamos de generalizações e trabalhamos com as mesmas de forma ainda
muito precária, de modo impulsivo e inconsequente. Generalizações costumam ser
difíceis porque englobam ou excluem conjuntos inteiros, o que se mostra às vezes
impróprio, errado e até perigoso. Apesar de saber que o que afirmo neste texto
também não passa de alerta quanto a uma obviedade, entendo que, por causa dos
modismos esdrúxulos tão presentes em nosso tempo, devemos, ocasionalmente,
fazer uma defesa de certas obviedades que, por negligência do pensamento,
passam a não ser tão obviedades assim.
Há um texto na Bíblia
sobre o qual teci vários comentários no passado mais remoto e recente. Por suas
características e pelo que narra, transmite a alguns um certo tom irônico, mas
suspeito que a situação em si foi tudo, menos “irônica”. O texto é o seguinte:
E, passando seus
discípulos para o outro lado, tinham-se esquecido de trazer pão. E Jesus
disse-lhes: Adverti, e acautelai-vos do fermento dos fariseus e saduceus. E
eles arrazoavam entre si, dizendo: É porque não trouxemos pão. E Jesus,
percebendo isso, disse: Por que arrazoais entre vós, homens de pouca fé, sobre
o não terdes trazido pão? Não compreendeis ainda, nem vos lembrais dos cinco
pães para cinco mil homens, e de quantas alcofas levantastes? Nem dos sete pães
para quatro mil, e de quantos cestos levantastes? Como não compreendestes que
não vos falei a respeito do pão, mas que vos guardásseis do fermento dos
fariseus e saduceus? Então compreenderam que não dissera que se guardassem do
fermento do pão, mas da doutrina dos fariseus“. Mateus 16:5-12.
Por que o texto pode
parecer um tanto “irônico” para nós, hoje? Porque costumamos rir de dúvidas
estúpidas e a dúvida dos discípulos mostrou-se mais do que estúpida, mostrou-se
potencialmente perigosa à sua própria saúde espiritual. Mas, minha atenção
quanto ao texto não focará exclusivamente na postura dos discípulos, e sim a de
Jesus. É moda destacar aquilo que parece, mas não é. Ok.
Assim, a desconfiança
das pessoas cresce e as “blinda” a tal ponto que uma outra proposição
generalizadora nasce e cresce no ideário popular, quase que como um “reforço”
daquela primeira: (Tudo) o que parece não é. Ora, num mundo de tantas mentiras,
tantos acobertamentos, tantos escândalos, tanta hipocrisia e falsa humildade,
não é de admirar que uma sentença como essa ganhe vulto, ao ponto de se
estabelecer como “norma” cognitiva. Contudo, esse tipo de raciocínio gera
outros monstros, às vezes totalmente absurdos, mas dada sua aparente
onipresença no senso comum, consolidam-se como “verdades claras e
inquestionáveis”, isentas de quaisquer tipos de análises críticas.
No domínio do
politicamente correto atual, firmou-se monstruosamente a ideia de que quem
exorta, quem argui, quem questiona com mais contundência, com mais veemência,
com a força incisiva necessária dadas algumas situações absurdas, é fraco
espiritualmente, quando não camuflado, hipócrita, carnal e isto, para muitos é
“óbvio”.
Caiu no senso comum
que só o que age de maneira contrária a esse comportamento é espiritual,
verdadeiro e digno de confiança. É claro que a irascibilidade é sinal de
descontrole e falta de espiritualidade, mas, estariam as pessoas, dados os
novos “parâmetros”, aptas a realmente discernir o que é verdadeira
irascibilidade, descontrole, carnalidade, de uma repreensão oportuna, necessária,
correta e mais: semelhante à postura de Cristo?
Como você acha que
Jesus interpelou os discípulos naquele momento, prezado internauta, ao ver –
permita-me dizer – a infantilidade com que lidaram com uma exortação tão
importante do Mestre, de se absterem do “fermento dos fariseus e saduceus”?
Neste momento, em que os discípulos erravam, não por rebeldia, maldade, vileza,
mas pela mais pura e aparentemente inofensiva inabilidade de discernir sobre
que tipo de “fermento” Jesus se referia, como você acha que o Mestre portou-se
ao fazer aquelas perguntas?
Como estou ciente de
que também vivemos na era dos exageros, das generalizações inconsequentes, sei
que alguns, agora, podem estar pensando: “Ah, o Pr. Artur está fazendo uma
defesa do jeito abrupto de falar.. das exortações mais “duras”, de uma maior
contundência quando o líder acha necessário que assim seja”. Repito: (é óbvio
que) o que parece, às vezes não é….. e o que parece, às vezes é!!!
No texto acima, Jesus
não só pareceu estar irritado: ele estava!! Ele não apenas pareceu estar
frustrado e triste com os discípulos: ele estava!! Podemos concluir: Jesus, às
vezes, não parecia cansado, exausto, irritado, frustrado e com vontade de
desistir. Ele estava mesmo, mas seu senso de dever, de honra, de servo, de
filho de Deus, seu caráter, tudo convergia para que ele SEMPRE colocasse a
vontade do Pai sobre a sua, em TODO o período do seu ministério terreno.
Observe esta passagem:
E, quando chegaram à
multidão, aproximou-se-lhe um homem, pondo-se de joelhos diante dele, e
dizendo: Senhor, tem misericórdia de meu filho, que é lunático e sofre muito;
pois muitas vezes cai no fogo, e muitas vezes na água; E trouxe-o aos teus
discípulos; e não puderam curá-lo. E Jesus, respondendo, disse: O geração
incrédula e perversa! até quando estarei eu convosco, e até quando vos
sofrerei? Trazei-mo aqui”. Mateus 17:14-17.
No texto, parece que
Jesus estava cansado, frustrado e reclamando daquela geração descrente…… e
estava!! Não imagino Jesus dizendo aquelas palavras sorrindo, ou como um
trovador, recitando uma poesia lírica. “Pense num carão”, no bom e velho
“nordestês”. Seria Jesus um carnal, tirano, blasfemo, ingrato, louco, por
proferir essas e aquelas outras palavras? Observe, prezado internauta, que se
imaginarmos que as ocorrências destes dois textos se dão em linha sucessiva,
cronologicamente falando, (pois o Evangelho de Mateus é mais cronológico do que
o Marcos e o de João, por exemplo), Jesus já vinha cansado da inépcia dos
discípulos nos fatos descritos no capítulo 16, o que só veio a agravar-se ainda
mais nesse episódio do capítulo 17.
MUITOS de nós podem
dizer: “Ah, não, mas este era Jesus, e ele não estaria cansado ou frustrado,
porque Jesus era um homem espiritual e homens espirituais não se cansam, não
praguejam, não dão exortações desse tipo”. Este tipo de defesa só pode ser
feita hoje, mesmo, pois penso que, à época, não só discípulos próximos a Cristo
pensavam assim, como muitos o abandonaram por entenderem que Jesus, de fato,
“não era alguém espiritual“, dadas as constantes e contundentes pregações (cf.
João 6).
Temos um exemplo,
clássico do “mote” (homens espirituais não exortam contundentemente… não
gritam… não se frustram… não se cansam… não lastimam a constante inépcia,
fraqueza daqueles que não deveriam exibir tais comportamentos), o qual virou
“moda” (é verdade… é verdade…. é verdade…. é verdade….), que por sua vez virou
“norma” (homens espirituais ´não devem´ exortar contundentemente, jamais
gritar, ou se frustrar e demonstrar sua frustração, ou se cansar ou lastimar a
inépcia constantes daqueles que não deveriam exibir tais comportamentos). Daí,
surge o monstro cognitivo do ideário popular: os que assim agem, podem até
parecer espirituais, mas não são! Observe que essa mesma “lógica” se aplica a Cristo,
por alguns de seus atos: “obviamente”, aquele homem era carnal!
Este é o maior mal
produzido pela esquizofrenia cognitiva imposta dos valores arbitrários, mas
charmosos, do “politicamente correto”. É com esse tipo de pensamento que muitos
estão citando as Escrituras, “explicando” e propagando seus próprios conceitos
de “espiritualidade”, numa demonstração clara de que sofrem das consequências
impositoras do assédio psicológico generalizado e distorcido da
pós-modernidade, em seu maior grau, que é justamente o estágio no qual defendem
preceitos que deveriam condenar, acusando e denunciando os preceitos que
deveriam defender e sem se dar conta disto! Fazendo cegamente o jogo sujo de
satanás, são os “crentes úteis” (perdoem-me a alusão e trocadilho com termo
gramsciano), aqueles que, justamente por sua inépcia espiritual, preguiça
intelectual, fazem o contrário do que deveriam praticar e se dão, a si
próprios, um tapinha nas costas por sua “grandiosíssima espiritualidade”,
louvando sua humildade, defendendo mansa, calma e serenamente os que praticam
os mesmos atos, quando são acusados incisiva, dura e biblicamente por quem está
denunciando-lhes a inépcia.
Os discípulos,
prezados internautas, não deveriam “ficar tristes” com as seguidas reclamações
de Jesus! Deveriam, sim, prestar mais atenção, serem mais sensíveis, mais
humildes, menos auto-indulgentes e mais determinados a seguirem à risca os
preceitos do Mestre, pois se Jesus estava se perguntando “Por quanto tempo vos
sofrerei?” (ou “Até quanto tempo tenho de aturar vocês, homens que insistem em
fazer o contrário do que lhes oriento?”), ele parecia ter motivos de sobra para
dizer aquilo… e sabe o que é pior? Ele tinha!….
Antes de vozes se
levantarem acusando-me de estar, de certo modo, defendendo “estupidez”,
“grosseria”, “selvageria” de ser, afirmo que o que assim pensa, principalmente
se me conhecer, estará usando de má fé com minhas palavras. Jamais defenderia
quaisquer arbitrariedades, principalmente nas pessoas que ocupam uma posição de
liderança (e, no meu caso, de ensino também). Mas, não duvido de modo algum que
Jesus fora taxado de “temerário”, “demasiadamente contundente”, “carnal”,
alguém que, pelos atos (e aqui refiro-me aos milagres e posturas ousadas)
poderia até “parecer espiritual……. mas, com toda a certeza, não era”.
É claro que tais
sentimentos devem ter existido em menor escala, se compararmos o ministério de
Cristo nos dias atuais. Hoje, ele seria imediatamente execrado e, talvez,
traído não por um discípulo, mas por muitos. Disso não há a menor dúvida.
Jesus, como exemplo perfeito de ser humano completo, era manso, justo e santo.
Mas, frustrava-se. É certo que sorria, mas com certeza chorava. Era, às vezes,
extraordinariamente amoroso com seus algozes – como na crucificação -, mas
sabia ser incisivo com a inépcia desmedida de seus discípulos, com a
arbitrariedade e hipocrisia de alguns, ainda que fossem próximos a si.
Jesus, às vezes,
parecia… e era! Cabia a quem o seguia buscar, encontrar e exercer o genuíno
discernimento.
Texto replicado da
página do facebook do Jorge Issao Noda , postado em 18
de outubro de 2013.
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