domingo, 20 de outubro de 2013

Quando se parece, e é!

Pr. Artur Eduardo[1]

Atualmente, é comum transformar “motes” em “moda” e – com uma ajudinha de “dona Internet” -, elevarmos a “moda do momento” a um status de “dogma perene”, algo que parece ter de vir associado àquilo que dizemos, simplesmente porque “está na moda”. Está na moda afirmarmos que muitas coisas (entenda-se “pessoas”) parecem, mas não são.

Apesar de ser uma frase que extrai da realidade apenas o óbvio, há algum tempo, em nosso contexto, “virou moda”, e como tal é comum quase todo mundo advertir de algo ou alguém que “parece, mas não é”. O ruim dos motes que viram moda é que suas contrapartes (ou contrárias) podem estar tão certas (ou erradas) quanto aquelas.

Observe a frase “Todos os políticos são honestos”. É evidentemente falsa. E, por incrível que pareça (e mesmo contra toda nossa desconfiança), a frase contrária daquela, ou “Nenhum político é honesto” também é falsa! Vamos a outro exemplo, mais abrangente: “Todo homem é brasileiro” é uma frase evidentemente falsa (há homens americanos, russos, chineses, holandeses etc.) , e sua contrária, “Nenhum homem é brasileiro”, é tão falsa quanto, pois há homens que são brasileiros. 

Porém, o nosso cérebro, cheio de certezas triviais do senso comum, costuma nos pregar peças. Quando se diz: “Nem tudo o que parece é” (o que é evidentemente verdade), parece confundir-se no ideário popular com a seguinte frase: “Tudo o que parece, não é”. São frases com sentidos tão distintos quanto “2″ e “√2″, e, ironicamente podem cair no problema que foquei no início deste texto, ou seja, parecem, mas não são.

A questão é, por quê? Porque gostamos de generalizações e trabalhamos com as mesmas de forma ainda muito precária, de modo impulsivo e inconsequente. Generalizações costumam ser difíceis porque englobam ou excluem conjuntos inteiros, o que se mostra às vezes impróprio, errado e até perigoso. Apesar de saber que o que afirmo neste texto também não passa de alerta quanto a uma obviedade, entendo que, por causa dos modismos esdrúxulos tão presentes em nosso tempo, devemos, ocasionalmente, fazer uma defesa de certas obviedades que, por negligência do pensamento, passam a não ser tão obviedades assim.

Há um texto na Bíblia sobre o qual teci vários comentários no passado mais remoto e recente. Por suas características e pelo que narra, transmite a alguns um certo tom irônico, mas suspeito que a situação em si foi tudo, menos “irônica”. O texto é o seguinte:

E, passando seus discípulos para o outro lado, tinham-se esquecido de trazer pão. E Jesus disse-lhes: Adverti, e acautelai-vos do fermento dos fariseus e saduceus. E eles arrazoavam entre si, dizendo: É porque não trouxemos pão. E Jesus, percebendo isso, disse: Por que arrazoais entre vós, homens de pouca fé, sobre o não terdes trazido pão? Não compreendeis ainda, nem vos lembrais dos cinco pães para cinco mil homens, e de quantas alcofas levantastes? Nem dos sete pães para quatro mil, e de quantos cestos levantastes? Como não compreendestes que não vos falei a respeito do pão, mas que vos guardásseis do fermento dos fariseus e saduceus? Então compreenderam que não dissera que se guardassem do fermento do pão, mas da doutrina dos fariseus“. Mateus 16:5-12.

Por que o texto pode parecer um tanto “irônico” para nós, hoje? Porque costumamos rir de dúvidas estúpidas e a dúvida dos discípulos mostrou-se mais do que estúpida, mostrou-se potencialmente perigosa à sua própria saúde espiritual. Mas, minha atenção quanto ao texto não focará exclusivamente na postura dos discípulos, e sim a de Jesus. É moda destacar aquilo que parece, mas não é. Ok.

Assim, a desconfiança das pessoas cresce e as “blinda” a tal ponto que uma outra proposição generalizadora nasce e cresce no ideário popular, quase que como um “reforço” daquela primeira: (Tudo) o que parece não é. Ora, num mundo de tantas mentiras, tantos acobertamentos, tantos escândalos, tanta hipocrisia e falsa humildade, não é de admirar que uma sentença como essa ganhe vulto, ao ponto de se estabelecer como “norma” cognitiva. Contudo, esse tipo de raciocínio gera outros monstros, às vezes totalmente absurdos, mas dada sua aparente onipresença no senso comum, consolidam-se como “verdades claras e inquestionáveis”, isentas de quaisquer tipos de análises críticas. 

No domínio do politicamente correto atual, firmou-se monstruosamente a ideia de que quem exorta, quem argui, quem questiona com mais contundência, com mais veemência, com a força incisiva necessária dadas algumas situações absurdas, é fraco espiritualmente, quando não camuflado, hipócrita, carnal e isto, para muitos é “óbvio”. 

Caiu no senso comum que só o que age de maneira contrária a esse comportamento é espiritual, verdadeiro e digno de confiança. É claro que a irascibilidade é sinal de descontrole e falta de espiritualidade, mas, estariam as pessoas, dados os novos “parâmetros”, aptas a realmente discernir o que é verdadeira irascibilidade, descontrole, carnalidade, de uma repreensão oportuna, necessária, correta e mais: semelhante à postura de Cristo? 

Como você acha que Jesus interpelou os discípulos naquele momento, prezado internauta, ao ver – permita-me dizer – a infantilidade com que lidaram com uma exortação tão importante do Mestre, de se absterem do “fermento dos fariseus e saduceus”? Neste momento, em que os discípulos erravam, não por rebeldia, maldade, vileza, mas pela mais pura e aparentemente inofensiva inabilidade de discernir sobre que tipo de “fermento” Jesus se referia, como você acha que o Mestre portou-se ao fazer aquelas perguntas?

Como estou ciente de que também vivemos na era dos exageros, das generalizações inconsequentes, sei que alguns, agora, podem estar pensando: “Ah, o Pr. Artur está fazendo uma defesa do jeito abrupto de falar.. das exortações mais “duras”, de uma maior contundência quando o líder acha necessário que assim seja”. Repito: (é óbvio que) o que parece, às vezes não é….. e o que parece, às vezes é!!!

No texto acima, Jesus não só pareceu estar irritado: ele estava!! Ele não apenas pareceu estar frustrado e triste com os discípulos: ele estava!! Podemos concluir: Jesus, às vezes, não parecia cansado, exausto, irritado, frustrado e com vontade de desistir. Ele estava mesmo, mas seu senso de dever, de honra, de servo, de filho de Deus, seu caráter, tudo convergia para que ele SEMPRE colocasse a vontade do Pai sobre a sua, em TODO o período do seu ministério terreno. Observe esta passagem:

E, quando chegaram à multidão, aproximou-se-lhe um homem, pondo-se de joelhos diante dele, e dizendo: Senhor, tem misericórdia de meu filho, que é lunático e sofre muito; pois muitas vezes cai no fogo, e muitas vezes na água; E trouxe-o aos teus discípulos; e não puderam curá-lo. E Jesus, respondendo, disse: O geração incrédula e perversa! até quando estarei eu convosco, e até quando vos sofrerei? Trazei-mo aqui”. Mateus 17:14-17.

No texto, parece que Jesus estava cansado, frustrado e reclamando daquela geração descrente…… e estava!! Não imagino Jesus dizendo aquelas palavras sorrindo, ou como um trovador, recitando uma poesia lírica. “Pense num carão”, no bom e velho “nordestês”. Seria Jesus um carnal, tirano, blasfemo, ingrato, louco, por proferir essas e aquelas outras palavras? Observe, prezado internauta, que se imaginarmos que as ocorrências destes dois textos se dão em linha sucessiva, cronologicamente falando, (pois o Evangelho de Mateus é mais cronológico do que o Marcos e o de João, por exemplo), Jesus já vinha cansado da inépcia dos discípulos nos fatos descritos no capítulo 16, o que só veio a agravar-se ainda mais nesse episódio do capítulo 17.

MUITOS de nós podem dizer: “Ah, não, mas este era Jesus, e ele não estaria cansado ou frustrado, porque Jesus era um homem espiritual e homens espirituais não se cansam, não praguejam, não dão exortações desse tipo”. Este tipo de defesa só pode ser feita hoje, mesmo, pois penso que, à época, não só discípulos próximos a Cristo pensavam assim, como muitos o abandonaram por entenderem que Jesus, de fato, “não era alguém espiritual“, dadas as constantes e contundentes pregações (cf. João 6).

Temos um exemplo, clássico do “mote” (homens espirituais não exortam contundentemente… não gritam… não se frustram… não se cansam… não lastimam a constante inépcia, fraqueza daqueles que não deveriam exibir tais comportamentos), o qual virou “moda” (é verdade… é verdade…. é verdade…. é verdade….), que por sua vez virou “norma” (homens espirituais ´não devem´ exortar contundentemente, jamais gritar, ou se frustrar e demonstrar sua frustração, ou se cansar ou lastimar a inépcia constantes daqueles que não deveriam exibir tais comportamentos). Daí, surge o monstro cognitivo do ideário popular: os que assim agem, podem até parecer espirituais, mas não são! Observe que essa mesma “lógica” se aplica a Cristo, por alguns de seus atos: “obviamente”, aquele homem era carnal!

Este é o maior mal produzido pela esquizofrenia cognitiva imposta dos valores arbitrários, mas charmosos, do “politicamente correto”. É com esse tipo de pensamento que muitos estão citando as Escrituras, “explicando” e propagando seus próprios conceitos de “espiritualidade”, numa demonstração clara de que sofrem das consequências impositoras do assédio psicológico generalizado e distorcido da pós-modernidade, em seu maior grau, que é justamente o estágio no qual defendem preceitos que deveriam condenar, acusando e denunciando os preceitos que deveriam defender e sem se dar conta disto! Fazendo cegamente o jogo sujo de satanás, são os “crentes úteis” (perdoem-me a alusão e trocadilho com termo gramsciano), aqueles que, justamente por sua inépcia espiritual, preguiça intelectual, fazem o contrário do que deveriam praticar e se dão, a si próprios, um tapinha nas costas por sua “grandiosíssima espiritualidade”, louvando sua humildade, defendendo mansa, calma e serenamente os que praticam os mesmos atos, quando são acusados incisiva, dura e biblicamente por quem está denunciando-lhes a inépcia.

Os discípulos, prezados internautas, não deveriam “ficar tristes” com as seguidas reclamações de Jesus! Deveriam, sim, prestar mais atenção, serem mais sensíveis, mais humildes, menos auto-indulgentes e mais determinados a seguirem à risca os preceitos do Mestre, pois se Jesus estava se perguntando “Por quanto tempo vos sofrerei?” (ou “Até quanto tempo tenho de aturar vocês, homens que insistem em fazer o contrário do que lhes oriento?”), ele parecia ter motivos de sobra para dizer aquilo… e sabe o que é pior? Ele tinha!….

Antes de vozes se levantarem acusando-me de estar, de certo modo, defendendo “estupidez”, “grosseria”, “selvageria” de ser, afirmo que o que assim pensa, principalmente se me conhecer, estará usando de má fé com minhas palavras. Jamais defenderia quaisquer arbitrariedades, principalmente nas pessoas que ocupam uma posição de liderança (e, no meu caso, de ensino também). Mas, não duvido de modo algum que Jesus fora taxado de “temerário”, “demasiadamente contundente”, “carnal”, alguém que, pelos atos (e aqui refiro-me aos milagres e posturas ousadas) poderia até “parecer espiritual……. mas, com toda a certeza, não era”.

É claro que tais sentimentos devem ter existido em menor escala, se compararmos o ministério de Cristo nos dias atuais. Hoje, ele seria imediatamente execrado e, talvez, traído não por um discípulo, mas por muitos. Disso não há a menor dúvida. Jesus, como exemplo perfeito de ser humano completo, era manso, justo e santo. Mas, frustrava-se. É certo que sorria, mas com certeza chorava. Era, às vezes, extraordinariamente amoroso com seus algozes – como na crucificação -, mas sabia ser incisivo com a inépcia desmedida de seus discípulos, com a arbitrariedade e hipocrisia de alguns, ainda que fossem próximos a si.

Jesus, às vezes, parecia… e era! Cabia a quem o seguia buscar, encontrar e exercer o genuíno discernimento.

Texto replicado da página do facebook do Jorge Issao Noda , postado em 18 de outubro de 2013. 






[1] Professor de Teologia e Filosofia no Seminário Teológico Pentecostal do Nordeste.

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