A teologia reformada afirma: “É imutável (o decreto da salvação) e,
portanto torna segura e certa a salvação dos eleitos”. (BERKHOF, p. 108).
Se os eleitos serão salvos com
certeza, por força de decreto divino, então é vão ficar lamentando e com a
sensação de culpa com relação às pessoas que morreram “sem Cristo”, se é certo
que nenhum eleito ficará de fora. Se morreu sem ter aceito a Cristo, não era
eleito. Portanto, não importa o que fosse feito aquela pessoa jamais faria sua
decisão por Cristo, visto que não fazia parte do seleto grupo de eleitos por
Deus.
Por outro lado, a impossibilidade de
que todos ouçam o evangelho e sejam salvos é uma questão puramente aritmética. É desafiador determinar a percentagem de seres humanos que nascem no mundo a cada
minuto; portanto, a igreja simplesmente não tem como dar conta do número
sempre crescente de humanos que precisam ouvir o evangelho. Além desse fator,
deve-se levar em conta a inércia e indiferença da igreja, de um modo geral, na
pregação do evangelho. Sabemos que civilizações inteiras sucumbiram e já não
existem mais, sem que nenhum de seus integrantes tivesse a oportunidade de
ouvir falar de Cristo e ser salvo. O apóstolo Paulo reforça esse entendimento quanto
afirma que “a fé não é para todos” – apesar de a salvação estar disponível para
todos.
A teologia reformada diz que o ato
de aceitar a salvação em cristo pela fé, se fosse uma decisão humana, estaria
sendo baseada em méritos. E isto é inaceitável, pois a salvação é de graça não
pelas obras. Imaginemos, no entanto, que alguém está dependurado em um
precipício, e a qualquer momento pode despencar. Acontece que ele olha para o
alto e eis uma mão forte estendida oferecendo-lhe ajuda. Se essa pessoa estender
a mão e for salva do precipício, qual terá sido seu mérito?
NOSSO SENSO DE
JUSTIÇA E A JUSTIÇA DE DEUS
Somos constantemente expostos a situações, tanto as que nos afetam
diretamente, quanto as que afetam outras pessoas que nos levam a questionar a justiça
de Deus. O grande problema, porém, nesse questionamento é que partimos do nosso
próprio senso de justiça, de nossa representação mental e moral do que é
justiça. Acontece que, mesmo entre nós seres humanos a noção de justiça é muito
relativa, dependendo da formação pessoal e cultural de cada um. Quando pensamos
em termos de justiça divina a disparidade com a nossa se torna infinitamente
maior.
Quando me deparo com uma situação provocada declaradamente por Deus – ao
menos segundo os registros bíblicos, que assumo como divinamente inspirados -,
e que ferem o meu senso de justiça, por exemplo: quando Deus ordena ao seu povo
que invadam um determinado reino e mate todos ao fio da espada, meu senso de
justiça é impactado e desafiado. Os críticos de minha fé lançam esses fatos no
meu rosto, e a única resposta que tenho é que Deus é soberano e sabe o que está
fazendo, mesmo quando esteja, dessa forma ferindo meu senso de justiça. Nesse
sentido Berkhof ( p. 75) ensina que “Deus tem suas razões para querer como
quer, razões que induzem a escolher um fim e não outro, e uma série de meios
para realizar um fim, em preferência a outros meios”.
Costumo pensar nesta situação fazendo um paralelo com minha própria
experiência profissional. Como militar, muitas vezes fui afetado por decisões
superiores e testemunhei colegas sendo também afetados, decisões a nosso ver
“injustas” que causaram verdadeira indignação. Algumas se comprovaram
injustiças, outras não. A razão principal de nossa indignação era o
desconhecimento de informações que meus superiores tinham para tomá-las, e que
eu não tinha. Da mesma forma, Deus tem suas razões para fazer o que faz a nós
desconhecidas; por essa razão, nos indignamos ou tão somente ficamos tristes e
sem argumentos suficientemente convincentes para dar àqueles que nos questionam
“Se Deus é justo, por que tais e tais coisas acontecem?” No entanto, deve-se
considerar o fato de que o senso de justiça humano está invariavelmente afetado
por sua natureza decaída.
Outro aspecto que desnuda nosso
“senso de justiça” são os interesses envolvidos, e até que ponto seremos
afetados. Por exemplo, se um maníaco ataca uma criança e a violenta, o clamor
público exige que a justiça seja feita. Alguns, mais afoitos, tentam fazê-la
com as próprias mãos. Por outro lado, quando esse mesmo criminoso é um parente
seu, a aplicação da “justiça” tende a ser mais branda, ou mesmo a absolvê-lo. Nesse
sentido, a própria legislação penal isenta de penalidade os pais que protegem
um filho criminoso. Portanto, nosso senso de justiça é questionável.
Muitas vezes nos detemos em
indagações para as quais dificilmente teremos respostas. Com essa postura
negligenciamos a luz que já nos foi dada por Deus através das Escrituras. Por
exemplo, somos inclinados a indagar o destino das almas daqueles que nunca
ouviram falar da salvação em Cristo, ou melhor, onde está a justiça e o amor de
Deus em Cristo se muitos morreram e morrerão sem ter a oportunidade de ouvir
falar da salvação em Cristo, enquanto ficamos calados e nossos vizinhos e
amigos não ouviram uma só palavra através de nós sobre a necessidade que têm de
salvação e o único caminho em Cristo.
Com todo respeito devido ao Senhor,
essa questão é um problema dele, não nosso. Sem sombra de dúvidas, ele saberá
como lidar com esse fato. A nós compete compartilhar de Cristo com o maior
número de pessoas que pudermos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário