segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

A predestinação e o nosso senso de justiça



A teologia reformada afirma: “É imutável (o decreto da salvação) e, portanto torna segura e certa a salvação dos eleitos”. (BERKHOF, p. 108).
            Se os eleitos serão salvos com certeza, por força de decreto divino, então é vão ficar lamentando e com a sensação de culpa com relação às pessoas que morreram “sem Cristo”, se é certo que nenhum eleito ficará de fora. Se morreu sem ter aceito a Cristo, não era eleito. Portanto, não importa o que fosse feito aquela pessoa jamais faria sua decisão por Cristo, visto que não fazia parte do seleto grupo de eleitos por Deus.
            Por outro lado, a impossibilidade de que todos ouçam o evangelho e sejam salvos é uma questão puramente aritmética. É desafiador determinar a percentagem de seres humanos que nascem no mundo a cada minuto; portanto, a igreja simplesmente não tem como dar conta do número sempre crescente de humanos que precisam ouvir o evangelho. Além desse fator, deve-se levar em conta a inércia e indiferença da igreja, de um modo geral, na pregação do evangelho. Sabemos que civilizações inteiras sucumbiram e já não existem mais, sem que nenhum de seus integrantes tivesse a oportunidade de ouvir falar de Cristo e ser salvo. O apóstolo Paulo reforça esse entendimento quanto afirma que “a fé não é para todos” – apesar de a salvação estar disponível para todos.
            A teologia reformada diz que o ato de aceitar a salvação em cristo pela fé, se fosse uma decisão humana, estaria sendo baseada em méritos. E isto é inaceitável, pois a salvação é de graça não pelas obras. Imaginemos, no entanto, que alguém está dependurado em um precipício, e a qualquer momento pode despencar. Acontece que ele olha para o alto e eis uma mão forte estendida oferecendo-lhe ajuda. Se essa pessoa estender a mão e for salva do precipício, qual terá sido seu mérito?
           
NOSSO SENSO DE JUSTIÇA E A JUSTIÇA DE DEUS

Somos constantemente expostos a situações, tanto as que nos afetam diretamente, quanto as que afetam outras pessoas que nos levam a questionar a justiça de Deus. O grande problema, porém, nesse questionamento é que partimos do nosso próprio senso de justiça, de nossa representação mental e moral do que é justiça. Acontece que, mesmo entre nós seres humanos a noção de justiça é muito relativa, dependendo da formação pessoal e cultural de cada um. Quando pensamos em termos de justiça divina a disparidade com a nossa se torna infinitamente maior.
Quando me deparo com uma situação provocada declaradamente por Deus – ao menos segundo os registros bíblicos, que assumo como divinamente inspirados -, e que ferem o meu senso de justiça, por exemplo: quando Deus ordena ao seu povo que invadam um determinado reino e mate todos ao fio da espada, meu senso de justiça é impactado e desafiado. Os críticos de minha fé lançam esses fatos no meu rosto, e a única resposta que tenho é que Deus é soberano e sabe o que está fazendo, mesmo quando esteja, dessa forma ferindo meu senso de justiça. Nesse sentido Berkhof ( p. 75) ensina que “Deus tem suas razões para querer como quer, razões que induzem a escolher um fim e não outro, e uma série de meios para realizar um fim, em preferência a outros meios”.
Costumo pensar nesta situação fazendo um paralelo com minha própria experiência profissional. Como militar, muitas vezes fui afetado por decisões superiores e testemunhei colegas sendo também afetados, decisões a nosso ver “injustas” que causaram verdadeira indignação. Algumas se comprovaram injustiças, outras não. A razão principal de nossa indignação era o desconhecimento de informações que meus superiores tinham para tomá-las, e que eu não tinha. Da mesma forma, Deus tem suas razões para fazer o que faz a nós desconhecidas; por essa razão, nos indignamos ou tão somente ficamos tristes e sem argumentos suficientemente convincentes para dar àqueles que nos questionam “Se Deus é justo, por que tais e tais coisas acontecem?” No entanto, deve-se considerar o fato de que o senso de justiça humano está invariavelmente afetado por sua natureza decaída.
            Outro aspecto que desnuda nosso “senso de justiça” são os interesses envolvidos, e até que ponto seremos afetados. Por exemplo, se um maníaco ataca uma criança e a violenta, o clamor público exige que a justiça seja feita. Alguns, mais afoitos, tentam fazê-la com as próprias mãos. Por outro lado, quando esse mesmo criminoso é um parente seu, a aplicação da “justiça” tende a ser mais branda, ou mesmo a absolvê-lo. Nesse sentido, a própria legislação penal isenta de penalidade os pais que protegem um filho criminoso. Portanto, nosso senso de justiça é questionável.
            Muitas vezes nos detemos em indagações para as quais dificilmente teremos respostas. Com essa postura negligenciamos a luz que já nos foi dada por Deus através das Escrituras. Por exemplo, somos inclinados a indagar o destino das almas daqueles que nunca ouviram falar da salvação em Cristo, ou melhor, onde está a justiça e o amor de Deus em Cristo se muitos morreram e morrerão sem ter a oportunidade de ouvir falar da salvação em Cristo, enquanto ficamos calados e nossos vizinhos e amigos não ouviram uma só palavra através de nós sobre a necessidade que têm de salvação e o único caminho em Cristo.
            Com todo respeito devido ao Senhor, essa questão é um problema dele, não nosso. Sem sombra de dúvidas, ele saberá como lidar com esse fato. A nós compete compartilhar de Cristo com o maior número de pessoas que pudermos.


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