sexta-feira, 21 de julho de 2017

Angústia indescritível

"E, levando consigo a Pedro, Tiago e João, começou a sentir-se tomado de pavor e de angústia. E lhes disse: a minha alma está profundamente triste até à morte; ficai aqui e vigiai." (Marcos 14.33-34).

Acredito que este momento revelou de forma dramática toda a humanidade de Cristo. Aquele que disse várias vezes "não temais"; que dormiu tranquilamente, enquanto uma tempestade ameaçava destroçar o barquinho em que estava; que ordenou ao vento e ao mar que se aquietassem; que repreendeu a pouca fé de Pedro e dos demais discípulos; agora sentia angústia e pavor e sua alma estava "profundamente triste até à morte" diante de sua iminente crucificação!

O Filho do Homem, ou o Filho de Deus estava apavorado, angustiado e profundamente triste! É inacreditável que esses sentimentos pudessem fazer parte da personalidade de Jesus. Sua compaixão pelas multidões famintas e desnorteadas, sua ira ao ver o templo sendo utilizado como mercado, suas lágrimas por ocasião da morte de Lázaro, sua indignação com a insistência hipócrita dos fariseus em tentar incriminá-lo à luz da Lei Mosaica, tudo isto é aceitável, mas pavor, angústia e profunda tristeza até à morte são sentimentos que jamais esperaríamos de um homem que se dizia filho de Deus, que recebia adoração e que operou vários milagres, até mesmo trazer mortos de volta à vida!

Mas foi o que aconteceu. Foi assim que os discípulos descreveram os sentimentos de Cristo, pois foi assim que ele próprio confessou estar se sentindo. Compreender tudo isto é tão difícil quanto compreender a relação das três pessoas da Trindade. Mas é um fato teológico e bíblico. Está ali revelado. Cremos, ainda que não tenhamos completa compreensão. Está além de nossa dimensão humana, daí a dificuldade de compreendê-lo. Mas cremos porque o Espírito Santo inocula em nosso coração essa fé.

No entanto, a tempestade de sentimentos que assolava o ser humano Jesus é um eloquente discurso sobre a tamanha carga que ele estava tomando sobre si: não me refiro à cruz, mas a tudo o quanto ela representa: pecado da humanidade. Ele estava para tomar sobre si o julgamento do Deus eterno! Em Gálatas 3.13, o apóstolo Paulo nos ensina que "Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar (porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro". Por isto a angústia!

Mas os discípulos não compreenderam a dimensão desse sofrimento que já começara no Monte das Oliveiras. O mestre precisava de companhia e apoio nesse momento crucial; ele os havia chamado para "lutar" com o Pai em oração, mas eles o deixaram só! Eles dormiam enquanto o Senhor transpirava gotas de sangue em fervente oração! Nem por uma hora eles puderam vigiar (Mc 14.37); Quando ele foi preso, "deixando-o, todos fugiram" (Mc. 14.54); Pedro o seguia de longe (Mc 14.54) e, por três vezes, negou que o conhecia (Mc 14.66-72); as mulheres que o apoiavam no ministério, nada podiam fazer, apenas observar de longe (Mc 15.40). Ele estava só e ferido no Gólgota para dar sua vida por nós!

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